Dia de proteção à floresta РTerras do Sem-Fim (Jorge Amado)

Dia de proteção à floresta РTerras do Sem-Fim (Jorge Amado)

Comemoramos o dia de prote√ß√£o √† Floresta com um trecho da obra “Terras do Sem-Fim”, de Jorge Amado. Publicado em 1943, o livro retrata conflitos por terras nas florestas do sul da Bahia, com o objetivo de transform√°-las em planta√ß√Ķes de cultivo do cacau.

A hist√≥ria √© permeada por brigas pol√≠ticas, rela√ß√Ķes amorosas e crimes passionais, al√©m disso, Jorge Amado desperta a aten√ß√£o do leitor para a preserva√ß√£o das florestas, como descrito no trecho abaixo:

“A mata dormia o seu sono jamais interrompido. Sobre ela passavam os dias e as noites, brilhava o sol do ver√£o, ca√≠am as chuvas do inverno. Os troncos eram centen√°rios, um eterno verde se sucedia pelo monte afora, invadindo a plan√≠cie, se perdendo no infinito. Era como um mar nunca explorado, cerrado no seu mist√©rio. A mata era como uma virgem cuja carne nunca tivesse sentido a chama do desejo. E como uma virgem era linda, radiosa e mo√ßa apesar das √°rvores centen√°rias. Misteriosa como a carne de mulher ainda n√£o possu√≠da. E agora era desejada tamb√©m.

Da mata vinham trinados de p√°ssaros nas madrugadas de sol. Voavam sobre as √°rvores as andorinhas de ver√£o. E os bandos de macacos corriam numa doida corrida de galho em galho, morro abaixo, morro acima. Piavam os coruj√Ķes para a lua amarela nas noites calmas. E seus gritos n√£o eram ainda anunciadores de desgra√ßas j√° que os homens ainda n√£o haviam chegado √† mata. Cobras de in√ļmeras esp√©cies deslizavam entre as folhas secas, sem fazer ru√≠do, on√ßas miavam seu espantoso miado nas noites de cio.

A mata dormia. As grandes árvores seculares, os cipós que se emaranhavam, a lama e os espinhos defendiam o seu sono.

Da mata, do seu mist√©rio, vinha o medo para o cora√ß√£o dos homens. Quando eles chegaram, numa tarde, atrav√©s dos atoleiros e dos rios, abrindo picadas, e se defrontaram com a floresta virgem, ficaram paralisados pelo medo. A noite vinha chegando e trazia nuvens negras com ela, chuvas pesadas de junho. Pela primeira vez o grito dos coruj√Ķes foi, nesta noite, um grito agoureiro de desgra√ßa. Ressoou com voz estranha pela mata, acordou os animais, silvaram as cobras, miaram as on√ßas nos seus ninhos escondidos, morreram andorinhas nos galhos, os macacos fugiram. E, com a tempestade que desabou, as assombra√ß√Ķes despertaram na mata. Em verdade teriam elas chegado com os homens, na rabada da sua comitiva, junto com os machados e as foices, ou j√° estariam elas habitando na mata desde o in√≠cio dos tempos? Naquela noite despertaram e eram o lobisomem e a caipora, a mula-de-padre e o boitat√°.

Os homens se encolheram com medo, a mata lhes infundia um respeito religioso. N√£o havia nenhuma picada, ali habitavam somente os animais e as assombra√ß√Ķes. Os homens pararam, o medo no cora√ß√£o.

E, de s√ļbito, na noite de temporal, diante da mata, os homens descobriam esse recanto tr√°gico do universo, onde habitavam as assombra√ß√Ķes. Ali, na mata, em meio da floresta, sobre os cip√≥s, em companhia das cobras venenosas, das on√ßas ferozes, dos agoirentos coruj√Ķes, estavam pagando pelos crimes cometidos aqueles que as maldi√ß√Ķes haviam transformado em animais fant√°sticos. Era dali que nas noites sem lua partiam para as estradas a esperar os viandantes que buscavam seus lares. Dali partiam para amedrontar o mundo. Agora, em meio do ru√≠do do temporal, os homens parados, pequeninos, ouvem, vindo da mata, o rumor das assombra√ß√Ķes despertadas. E v√™em, quando cessam os raios, o fogo que elas lan√ßam pela boca, e v√™em, por vezes, o vulto inimagin√°vel da caipora bailando seu bailado espantoso. A mata! n√£o √© um mist√©rio, n√£o √© um perigo nem uma amea√ßa. √Č um deus.

N√£o h√° vento frio que venha do mar. Distante est√° o mar de verdes ondas. N√£o h√° vento frio, nessa noite de chuva e rel√Ęmpagos. Mas, ainda assim, os homens est√£o arrepiados e tremem, se apertam os seus cora√ß√Ķes. A mata-deus na sua frente. O medo dentro deles.

Deixaram cair os machados, os serrotes e as foices. Est√£o de m√£os inertes diante do espet√°culo terr√≠vel da mata. Seus olhos abertos, desmesuradamente abertos, v√™em o deus em f√ļria ante eles. Ali est√£o os animais inimigos do homem, os animais agoureiros, ali est√£o as assombra√ß√Ķes. N√£o √© poss√≠vel prosseguir, nenhuma m√£o de homem pode se levantar contra o deus. Recuam devagar, o medo nos cora√ß√Ķes. Explodem os raios sobre a mata, a chuva cai. Miam as on√ßas, silvam as cobras, e, sobre todo o temporal, as lamenta√ß√Ķes dos lobisomens, das caiporas e das mulas-de-padre, defendem o mist√©rio e a virgindade da mata. Diante dos homens est√° a mata e o passado do mundo, o princ√≠pio do mundo. Largam os fac√Ķes, os machados, as foices, os serrotes, s√≥ h√° um caminho, √© o caminho da volta.”

(Jorge Amado, Terras do Sem-Fim)